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A ética nas organizações




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A ética nas organizações

            A partir dos conceitos discutidos até esse momento, abrir-se-á a discussao para que as organizações possam ser englobadas. Este tópico será uma tentativa de delinear os limites que as organizações e seus padrões cognitivos impõem à ética ou, mais precisamente, à pensabilidade desta. Tomando os pares conceituais weberianos como referenciais, analisar-se-á os problemas éticos oriundos da organizaçao, as inevitáveis tensões éticas vividas pelos indivíduos nas organizações e o contexto burocrático e sua influência para a ética. Antes, porém, é necessário analisar os alicerces psicológicos que sustentam e legitimam a teoria organizacional, responsável pela perda da capacidade da razao do indivíduo em normatizar sua própria conduta, o qual Guerreiro Ramos denominou de síndrome comportamentalista.



1 A síndrome comportamentalista: perda da capacidade ética do indivíduo

            A ética se encontra em uma situaçao como a de uma língua que vai perdendo sua relevancia, desaparecendo do imaginário social e, com isso, proporcionando sua perda. Como exemplo se tem o latim, cujo grande público nao possui mais o conhecimento dessa língua, sendo apenas algumas poucas pessoas que se preocupam com ela e a utilizam. A perda que esse trabalho se refere é nesse sentido. Um outro paralelo que pode ser feito: é como o desaparecimento gradual de um sistema de medir, numa primeira aproximaçao e, mais intensamente, como o abandono mesmo do hábito de medir (Zajdsznajder, 1999).

            É importante salientar que a ética de que se fala é a ética como consideraçao prática e presença relevante no mundo, e nao como tema de estudos filosóficos (ética filosoficamente pensada). A segunda nunca deixou de estar presente na história das disciplinas filosóficas, enquanto a primeira se pode falar de uma verdadeira perda de objeto, um se ausentar do cotidiano. A análise da síndrome comportamentalista que Guerreiro Ramos (1989, p.50-68) proporciona parece ser uma luz ao entendimento desse fenômeno.

Antes de adentrar propriamente nas características da síndrome comportamentalista, Guerreiro Ramos faz algumas ressalvas. Uma delas é uma proposta de distinçao entre comportamento e açao. Esquematicamente se pode agrupar da seguinte forma:

Quadro 2: Distinçao entre comportamento e açao

CONDUTA

Comportamento

Açao

Forma de conduta que se baseia na racionalidade funcional ou na estimativa utilitária de conseqüências (o ser humano tem em comum com outros animais)

Própria de um agente que delibera sobre coisas porque está consciente de suas finalidades intrínsecas

Categoria mais importante: conveniência

Categoria mais importante: padrao substantivo de conduta

Desprovido de conteúdo ético de validade geral

Constitui uma forma ética de conduta (universalizável)

Ditada por imperativos exteriores (conduta mecanomórfica)

Reconhece o valor intrínseco das finalidades

Pode ser avaliado como funcional ou efetivo e inclui-se, completamente, num mundo determinado por causas eficientes[1]

Ser humano age, toma decisões e faz escolhas porque causas finais influem no mundo em geral e nao apenas causas eficientes

Elaborado pelo autor a partir dos fundamentos teóricos apresentados por Guerreiro Ramos (1989)

O autor faz uma reflexao sobre a origem do termo 'comportamento', que data do final do século XV e significava conformidade a ordens exteriores. Observa que essa categoria nao perdeu seu significado original, fato que geralmente é negligenciado porque 'a conformidade a critérios de gregarismo socialmente estabelecidos foi transformada em padrões de moralidade humana em geral' (op. cit, p.51). Assim, o curso das ações dos seres humanos nao é mais pautada pelo senso comum substantivo  e, dessa forma, 'o indivíduo tornou-se uma criatura que se comporta' (op. cit., p.51).

Ramos assim define a síndrome comportamentalista: ' é uma disposiçao socialmente condicionada, que afeta a vida das pessoas quando estas confundem as regras e normas de operaçao peculiares a sistemas sociais episódicos com regras e normas de sua conduta como um todo' (op. cit., p.52). Complementa essa definiçao com a afirmaçao que a síndrome comportamentalista é uma 'ofuscaçao do senso pessoal de critérios adequados de modo geral à conduta humana' (op. cit, p.52). Em outras palavras, há a perda da autonomia do indivíduo.

Nessa linha, a síndrome comportamentalista é uma deturpaçao da noçao substantiva de conduta humana, tornando-se característica básica das sociedades contemporaneas, que sao a 'culminaçao de uma experiência histórica, a esta altura já velha de três séculos, que tenta criar um tipo nunca visto de vida humana associada, ordenada e sancionada pelos processos auto-reguladores de mercado' (op.cit, p.52). Nesse experimento o indivíduo teria ganho uma ilusória melhoria material e perdido em troca o senso pessoal de auto-orientaçao. Para Guerreiro Ramos, 'a isençao do mercado de regulaçao política deu origem a um tipo de vida humana associada ordenada apenas pela interaçao dos interesses individuais' (op.cit., p.52).

Assim, o autor rejeita as premissas psicológicas da teoria de organizaçao atual, por achar que esta toma por paradigma padrões existentes nas organizações de uma sociedade que nao passa de um mero acidente na história, ou seja, confunde o que é com o que deveria ser[2]. Para Guerreiro Ramos, só a deliberaçao dos membros da sociedade em busca de um padrao ético, substantivo, na vida humana associada é que pode ser a base para a vida social, e nunca os processos auto-reguláveis de mercado.

Guerreiro Ramos prossegue analisando 4 fatores fundamentais na síndrome comportamentalista: a fluidez da individualidade, o perspectivismo, o formalismo e o operacionalismo.

A fluidez da individualidade (perda de caráter do indivíduo) se refere a uma síndrome psicológica da sociedade capitalista, que remete a Montaigne e sua visao da natureza humana como inconstante e em contínua transiçao. Para Guerreiro Ramos, a fluidez da individualidade é provinda da forma de representaçao como a sociedade capitalista se legitima. Outras sociedades, anteriores e/ou nao-ocidentais, se basearam na noçao de que havia uma ordem coerente no universo e que a comunidade humana era parte dela. Já a sociedade moderna 'nao se reconhece como miniatura de um cosmos maior, mas como um contrato amplo entre seres humanos. Assim, a conduta humana se conforma a critérios utilitários que, a seu turno, estimulam a fluidez da individualidade' (op. cit., p.54). Guerreiro Ramos cita Hobbes para afirmar que, nessa sociedade, o bom e o mau sao convenções, e a imparcialidade substitui a verdade. Assim, o bom cidadao obedece a prescrições externas, sendo incapaz de açao, apenas de comportamento, já que nao delibera livremente.



Haveria assim uma fé errônea, segundo o autor, na absoluta transitoriedade das coisas. Guerreiro Ramos cita Whitehead para explicar que nao é concebível a mudança pela mudança, o fluxo do nada para o nada. A idéia de fluxo de Whitehead é de que o caráter da realidade é composto por organismos cuja essência ou padrao permanece através do fluxo das coisas. 'O fluxo das coisas é concretizaçao de seus padrões imanentes e, portanto, resulta inteiramente de causas eficientes e finais' (op. cit., p.55). Assim, para mudar é preciso antes ser. Para Guerreiro Ramos, a origem dessa noçao generalizada de transitoriedade está em parte na ciência a partir do século XVII, que vê o universo como partículas em movimento. Por outro lado, essa noçao seria também fruto da 'interiorizaçao acrítica, pelo indivíduo, da auto-representaçao da sociedade moderna'(op. cit., p.56). Isso levaria a uma busca pessoal da satisfaçao de uma sucessao de desejos, a qual seria va e geraria uma forma de individualidade que acaba, segundo o autor, em narcisismo. Conclui afirmando que quando a condiçao humana é classificada apenas como social, a fluidez da individualidade é inevitável.

O perspectivismo refere-se à compreensao por parte do indivíduo de que sua conduta, e a dos outros, é afetada por uma perspectiva. É na sociedade moderna que o indivíduo se dá conta desse fato, gerando 'um tipo peculiar de conduta, que merece ser referida como comportamento, e para se comportar bem, entao, o homem só tem que levar em conta as conveniências exteriores, os pontos de vista alheios e os propósitos em jogo' (op. cit., p.57). Guerreiro Ramos remete à introduçao das leis da perspectiva como um objeto de investigaçao científica formal, no século XV, para afirmar que 'na esteira da revoluçao comercial e industrial, a perspectiva deveria se tornar, cada vez mais, uma categoria sistemática de trabalho artístico, assim como uma característica da conduta humana em geral' (op. cit., p.57). Analisando o advento do mercado de arte na Itália no século XVI, o autor afirma que 'o mercado é a força subjacente, geradora da visao perspectivista da vida humana associada' (op. cit., p.58). Essa visao teria influenciado a teoria política de Maquiavel, na qual a conduta humana é despojada de substancia ética e a política é um cálculo de conseqüências habilmente a serviço de interesses[3]. Para Guerreiro Ramos, Maquiavel é um dos primeiros pensadores a perceberem os padrões motivadores imanentes de uma sociedade centrada no mercado, na qual 'nao apenas os príncipes, mas igualmente os homens comuns, têm o direito de pôr de lado os padrões morais das boas ações, na perseguiçao dos interesses pessoais [] Tais padrões em geral e o perspectivismo em particular tornaram-se os padrões normativos da conduta humana' (op. cit., p.59).

O formalismo se refere à 'observancia das regras [de comportamento social] que substitui a preocupaçao pelos padrões éticos substantivos' (op. cit. p.59), fundamentando-se na aparência perante os outros, dissociando-se do bem comum e caracterizada pela conduta humana que se tornou externamente orientada. Absorvendo uma realidade sem atitude crítica, exposto a um mundo infiltrado de relativismo moral, o sujeito 'nao é uma individualidade consistente, mas uma criatura fluida, pronta a desempenhar papéis convenientes' (op. cit., p.60). Guerreiro Ramos analisa autores como Adam Smith, Castiglione e Aristóteles para explicar que, nas sociedades modernas, 'o homem nao age, propriamente, mas comporta-se, isto é, é inclinado a se conformar com as regras eventuais de aprovaçao social' (op. cit., p.62). O bom homem, nesse caso, é aquele que se torna competente em 'gerência das impressões'[4] (op. cit., p.60). A legitimaçao dessa conduta humana, para Guerreiro Ramos, é o postulado básico da ciência do comportamento, focada em seus processos e nao em sua substancia.

O operacionalismo se refere à posiçao de que apenas as normas inerentes ao método de uma ciência natural de características matemáticas sao adequadas para a validaçao e a verificaçao do conhecimento. Isso significa dizer que 'apenas aquilo que pode ser fisicamente medido ou avaliado merece ser considerado como conhecimento' (op. cit., p.63). Para Guerreiro Ramos, o operacionalismo é uma característica da síndrome comportamentalista, permeado de uma orientaçao controladora do mundo e de uma recusa de reconhecer às causas finais qualquer papel na explicaçao do mundo físico e social. Nesse raciocínio, o problema da ordem nos negócios humanos admite apenas uma soluçao mecanica. E prossegue:

'Uma vez que as noções de bem e de mal, e todas as virtudes e sentimentos pertencentes ao domínio da ética, assumem o caráter de qualidades secundárias, o planejamento de uma boa sociedade equivale ao planejamento mecanico, em que os indivíduos sao engrenados, por instigações exteriores, para suportar as regras de conduta necessárias para manutençao da estabilidade desse sistema' (Ramos, op. cit., p.64).

Nessa linha, segundo Guerreiro Ramos, autores operacionalistas como Hobbes ainda têm muita influência na teoria das organizações e, por outro lado, há uma forte visao do mundo como um encadeamento de causas e conseqüências, no sentido mecanomórfico. Esse tipo de visao, segundo o autor, além de deturpar a identificaçao do útil[5] com o verdadeiro, limita a criatividade e a liberdade de açao no mundo.

Guerreiro Ramos conclui afirmando que os traços básicos da síndrome comportamentalista - a fluidez da individualidade, o perspectivismo, o formalismo e o operacionalismo - 'sao o credo nao enunciado de instituições e organizações que funcionam na sociedade centrada no mercado' (op. cit., p.67). Em nossa sociedade atual, a grande maioria dos indivíduos interioriza inconscientemente a síndrome comportamentalista, transformando-se numa segunda natureza. A teoria administrativa existente, por estar ela mesma submissa a esses mesmos traços básicos, nao poderá ajudar o ser humano a superar essa situaçao (op. cit., p.67).

 Enquanto os indivíduos, em geral, continuarem sucumbindo à persuasao organizada, às pressões e às influências que mantêm tal síndrome em operaçao, haverá pouca oportunidade para a reativaçao da capacidade de reflexao ética do indivíduo. Portanto, o estabelecimento da pensabilidade da ética nas organizações requer a superaçao da síndrome comportamentalista, de modo que esse ser passivo, que se comporta, recupere sua essência humana: a capacidade de agir.

2 Problemas éticos da organizaçao

            A vida nas organizações, assim como nas relações sociais, está repousada sobre valores. Estes valores, implícitos ou nao, vao definir as regras de açao que inspirarao os julgamentos e as condutas. Nenhuma interaçao humana escapa ao domínio dessas regras, pois elas definem os imperativos normativos da açao. Até o presente estágio do desenvolvimento das organizações, as regras que tiveram curso nas relações no contexto organizacional foram amplamente inspiradas em valores econômicos (Chanlat, 1992).

            A incongruência dos valores do indivíduo – que em sua complexidade vao muito além do econômico – com os da organizaçao[6], requer do indivíduo o que Ramos (1983) e Mannheim (1962) definem de auto-racionalizaçao da conduta. Em contextos onde se impõe a racionalidade funcional, a sobrevivência do homem 'depende de que seja capaz de se organizar mentalmente, de seu autocontrole moral e físico, tendo em vista o exercício de tarefas funcionalmente racionalizadas' (Ramos, op.cit, p.39)[7]. Faz-se necessário 'dopar' a mente de sua dimensao substantiva, caso o indivíduo esteja subordinado a padrões e normas constitutivas de uma carreira, cargo ou funçao. Ele torna-se parte funcionalmente racional da açao administrativa, autodominando seus impulsos, preferências e até crenças e ideologias. Nesse caso, o indivíduo está sob a égide da ética da responsabilidade. 'A ética da responsabilidade é ingrediente de toda açao administrativa. É o seu conteúdo subjetivo por excelência', completa Ramos (op. cit., p.44). E como a racionalidade funcional é apenas uma das duas dimensões da razao, a completa redutibilidade do indivíduo à organizaçao é uma falácia. 'A promessa de que a ciência virá um dia, mediante técnicas de relações humanas e organizativas, assegurar o equilíbrio perfeito entre o homem e a organizaçao é irrealizável e utópica' (Ramos, op.cit. p.43-4).

            Adotando, como fato básico, a irredutibilidade do indivíduo à organizaçao, abre-se para a possibilidade de coexistência, em relaçao de tensao, entre a racionalidade funcional e a racionalidade substantiva. Ao se perguntar se a tensao entre a ética da convicçao e a ética da responsabilidade é uniforme ou varia segundo os tipos de organizaçao, Ramos (op. cit.) recorre a Amitai Etzioni (1974). De seus trabalhos se conclui que a tensao entre as éticas nao se verifica em intensidade uniforme entre os tipos de organizaçao que denominou de normativas, utilitárias e coercitivas[8]. Numa escala gradativa, pode-se dizer que é mínima nas organizações normativas (instituições religiosas, partidos e associações políticas, universidades, associações profissionais) e máxima nas organizações coercitivas (campos de concentraçao, instituições correcionais, campos de prisioneiros de guerra). Nas organizações normativas, é de supor que os indivíduos concretizem, em grande parte, seus valores próprios, no desempenho do trabalho, já que se verifica alto grau de integraçao das convicções e dos deveres e funções organizacionais. Nas organizações utilitárias (empresas industriais, serviços, sindicatos patronais) os indivíduos se encontram parcialmente empenhados, pois a natureza das atividades nao lhes permite integrar plenamente seus próprios valores no trabalho. Finalmente, nas organizações coercitivas, a ética da convicçao de cada indivíduo está em conflito radical com a organizaçao.




            A tensao entre as duas éticas pode ter sua intensidade diminuída, mas nunca totalmente eliminada. Ramos (op.cit., p. 47) conclui que 'daí o conteúdo altamente ideológico de toda concepçao que, negligenciando precisar a natureza da açao administrativa, pressuponha que a racionalidade desta açao coincida com a racionalidade dos valores e convicções e com a racionalidade substantiva'.

            De uma maneira esquemática, pode-se interpretar:

Figura 1: Tensao entre o indivíduo e a organizaçao


Elaborado pelo autor a partir dos fundamentos teóricos apresentados.

A fim de apaziguar qualquer ambigüidade em relaçao à natureza das organizações, Ramos (op.cit., p.47), de maneira esclarecedora, conceitua açao administrativa: ' modalidade de açao social, dotada de racionalidade funcional, e que supõe estejam os seus agentes, enquanto a exercem, sob a vigência predominante da ética da responsabilidade'.

            Explica que é açao social[9] pois é orientada pelas ações de outros; tem caráter funcionalmente racional e com o decorrer da história deverá conciliar a eficiência com a racionalidade substancial; e por último, a organizaçao jamais ocupará, na sua totalidade, o espaço existencial humano. A razao da açao administrativa nao é a razao entendida como faculdade humana transcendente, mas sim como aquela que trata da eficácia, da operaçao produtiva de uma combinaçao de recursos e meios, tendo em vista alcançar objetivos predeterminados e/ou contingentes. Disso decorre que a organizaçao possui um ethos específico, diferente do ethos da vida humana geral. Há alguns aspectos em comum, contudo a ética da organizaçao é a ética da responsabilidade. E dessa forma, a organizaçao, como já dito, nao ocupa e jamais ocupará todo o espaço existencial do homem.

'Corresponde-lhe o espaço existencial em que predomina a ética da responsabilidade, e, por isso mesmo, a adaptaçao à organizaçao se efetiva à custa de um esforço de auto-racionalizaçao da conduta, de autolimitaçao e autodomínio do sujeito da açao administrativa. Resta, para expressao livre da personalidade, o espaço da existência em que predomina a ética da convicçao ou do valor absoluto' (Ramos, op. cit., p. 48-9).

3 O espaço burocrático: limites à conduta ética

            Uma teoria e um modelo para as organizações que espelha a deformaçao da razao devido à legitimaçao de seu reducionismo instrumental no espaço de produçao é a burocracia. Decorrente dos estudos de Weber (1978), as dimensões que a caracterizam podem ser assim sintetizadas: a) normas estabelecidas formalmente, visando fins utilitários; b) a hierarquia se estabelece pela subordinaçao; c) as comunicações sao escritas, formais; d) a especializaçao como princípio necessário ao exercício da profissao; e) dedicaçao total; f) competência técnica e conhecimento das normas e procedimentos; g) impessoalidade nas relações. Essas dimensões sao direcionadas para a produçao de bens e serviços e se configuram em todos os arranjos ou estratégias próprias à produçao de bens e serviços.

            Merton (1978) chama a atençao para as disfunções inerentes às dimensões da organizaçao burocrática. Ele mostra os aspectos negativos indicando os conceitos de incapacidade treinada de Veblen, a psicose ocupacional de Dewey e a deformaçao profissional de Warnotte. Outras disfunções sao acrescentadas por Merton tais como o formalismo ou ritualismo – que se caracteriza por uma apego excessivo aos procedimentos formais, que toma conta do indivíduo – a despersonalizaçao, a observancia estrita às normas, resultando no conservantismo e no tecnicismo e por fim a conformidade excessiva ou superconformidade. De forma especial, esta última disfunçao retira do indivíduo sua condiçao de autodeterminaçao/autonomia, tornando-o subordinado à forma de pensar do grupo e conformado a sua sorte como ser organizacional.

Se tomar as dimensões e as disfunções ou deformações da burocracia de forma analítica, confrontando com os conceitos de racionalidade, pode-se concluir que em todas está presente a racionalidade instrumental no sentido reducionista. Assim, o modelo burocrático foi erigido e desenvolvido sob a égide de um tipo de racionalidade que nega a razao no seu sentido lúcido. Em outras palavras, este modelo, destituído da racionalidade no seu sentido substantivo, é inadequado e mesmo hostil para que o indivíduo realize reflexões acerca de sua própria conduta ética. Há apenas a ética da responsabilidade a ser levada em conta nesse espaço, velando do ser humano seus valores e convicções. Dessa forma, o indivíduo se comporta para um propósito que nao é o seu, mas tomado como tal.

4 Ética no espaço de produçao: limites e possibilidades

            A tarefa de contribuir para que a ética se torne pensável dentro do espaço de produçao requer o entendimento das categorias até agora analisadas. Pois uma grande contradiçao predominante no mundo da administraçao reside na seguinte aporia: querer criar condições para que o homem conquiste sua maioridade (autodeterminaçao/autonomia), operando com um conceito reduzido e instrumental de razao. Disso resulta que as organizações desejam indivíduos ao mesmo tempo conformados, adaptáveis, inovadores e éticos. Seria o mesmo que desejar 'a quadratura do círculo' (Enriquez, 1995).

Conceitos como autonomia, autodeterminaçao, liberdade, capacidade de julgamento, sao elementos que participam da constituiçao do campo ético e sao próprios da esfera da racionalidade substantiva. Esses conceitos, como foram mostrados, sao excluídos do ambiente organizacional, por esse se caracterizar intrinsecamente por uma abordagem parcial da racionalidade humana. A auto-racionalizaçao – que tem como pressuposto a conduta estando sob a égide da racionalidade funcional – permite a sobrevivência do indivíduo na organizaçao, mas a submissao passiva do mesmo[10] a esses imperativos externos tem um profundo efeito sobre sua personalidade[11], efeito que nao desaparece em seu espaço vital humano. Há um desequilíbrio da tensao entre a racionalidade funcional e racionalidade substantiva, em detrimento desta última. Uma das conseqüências é o enfraquecimento de sua capacidade de fazer julgamentos éticos e críticos de natureza pessoal (Ramos, 1989, p. 110).

            Se uma pessoa permite que a organizaçao se torne a principal referência de sua existência e, portanto, de sua conduta, perde o contato com sua verdadeira individualidade, se adaptando a uma realidade fabricada. O seu propósito passa a ser o da organizaçao que, como visto, é uma meta contábil, exercida pela racionalidade funcional, ficando confinada sua conduta aos parametros dessa lógica. As questões referentes ao 'que devo fazer?' relacionados ao certo e ao errado, ao justo e ao injusto também é fornecido pela organizaçao – e legitimado pelo indivíduo – por meio de receituários de bom comportamento. O 'bom comportamento' é entendido como uma conduta adequada e conveniente de uma pessoa detentora de um cargo ou funçao com o objetivo de, eficientemente, atingir as metas de uma determinada organizaçao. Contudo, esse trabalho quer salientar que a ética trata de casos complicados, das coisas variáveis e contingenciais. O sentido do bem e do mal, do certo e do errado, do justo e do injusto deve estar no indivíduo[12], para poder se conduzir eticamente na organizaçao, devido a possibilidade dos códigos de conduta contemplarem apenas as coisas invariáveis e imutáveis[13]. Por isso, o enfoque que deve ser dado para que a ética se torne pensável nas organizações possui dois flancos: o primeiro é a transformaçao do espaço da organizaçao de modo a permitir que a razao substantiva passe a ser contemplada e exercida[14]; o segundo é o aperfeiçoamento moral do indivíduo, que implica na reativaçao de sua capacidade de deliberaçao. Com relaçao a este último ponto, é imprescindível que o indivíduo supere as fronteiras da organizaçao e tenha experiências existenciais em outros espaços que fogem das peculiaridades burocráticas. Pois, como visto, o ethos da organizaçao nao coincide com o ethos do ser humano. Assim, nao será no espaço econômico ou burocrático que se dará o exercício da reflexao ética, por esse vexar a liberdade, a autonomia e a capacidade crítica inerentes à razao substantiva.



            Como será visto a seguir, Guerreiro Ramos lança uma proposta que visa a responder a essas questões e superar esses limites, que foram tao bem colocados por Mouzelis (1978, p. 173-174):

'O problema crucial hoje nao é tanto como aumentar o que Mannheim chama de racionalidade funcional das burocracias modernas, mas sim, como defender dentro da crescente racionalidade funcional do mundo, um mínimo de racionalidade substantiva e iniciativa individual; nao como fazer pessoas mais contentes e cooperativas com a administraçao, mas sim, como nao deixá-las se tornarem autômatos felizes num 'admirável mundo novo'. Estes eram precisamente os problemas que preocupavam os sociólogos clássicos e os mesmos problemas precisam de reformulaçao e análise exaustiva hoje'.

            Da teoria de Guerreiro Ramos se extraem categorias que servirao de poderosos instrumentos de análise para o entendimento da economia de comunhao e do porquê a ética pode se estabelecer dentro do seu espaço de produçao. O que virá a seguir será um detalhamento desta teoria bem como a discussao de suas categorias.



[1] Na filosofia moderna se admite duas causas: a eficiente (a causalidade propriamente dita como relaçao entre a causa e seu efeito direto) e a final, para os seres dotados de vontade livre, pois esta sempre age tendo em vista fins.

[2] 'Essa ciência trata de socializaçao, de aculturaçao e de motivaçao como se padrões do bem fossem inerentes a uma tal sociedade. Em vez disso, deve ser compreendido que todas as sociedades sao menos do que boas; apenas o ser humano é bom. O bom homem, por sua vez, nunca é um ser inteiramente socializado; é antes, um ator sob tensao, cedendo ou resistindo aos estímulos sociais, com base em seu senso ético' (Ramos, op. cit. p.52).

[3] 'O príncipe precisa ser instruído sobre a perspectiva do governante para preservar e aumentar seus bens. Precisa compreender a perspectiva do cidadao comum para enganá-lo. O príncipe precisa ter sensibilidade para os imperativos cênicos, isto é, ser virtuoso por fingimento e capaz de induzir os cidadaos a serem bons através do sábio exercício da crueldade' (Ramos, op. cit., p.58).

[4] Em contraposiçao, o bom homem enfatizado por Aristóteles é guiado, sobretudo, 'pelo que aqui se qualifica como razao substantiva, comum a todos os homens, em qualquer momento e em qualquer lugar, e que nao deve ser considerada coincidente com padrões particulares de qualquer sociedade determinada' (Ramos, op.cit., p.61).

[5] 'Utilidade é uma noçao cheia de ambigüidade ética. Em si mesmo, aquilo que é útil pode ser tanto eticamente sadio quanto eticamente errado no domínio social e, desse modo, o papel do operacionalismo em ciência social deveria ser eticamente qualificado. Isso é precisamente o que Hobbes e os cientistas sociais convencionais, de modo geral, deixam de fazer. Despojaram a utilidade de seu caráter eticamente ambíguo, legitimando como normas gerais aquilo que é útil ao sistema social para o controle dos seres humanos que dele participam. Ainda mais uma vez, é evidente a afinidade entre o operacionalismo e a 'síndrome comportamentalista' (Ramos, op. cit., p.65).

[6] Nash (1993, p.25) adverte que 'sem uma ampla compreensao de como os valores particulares e os objetivos institucionais se relacionam ou deixam de se relacionar, a alegaçao de que a ética empresarial é simplesmente uma questao de boa consciência é bastante inútil e mesmo enganosa'.

[7] 'Por auto-racionalizaçao entendemos o controle sistemático, pelo indivíduo, de seus impulsos – controle que é sempre o primeiro passo a ser tomado, quando alguém deseja planificar sua vida de modo que toda açao seja guiada por princípios e dirigida para o objetivo que se tenha em mente. Ao me lembrar de que sou membro de uma organizaçao de grande alcance, em que toda açao deve ser cuidadosamente ajustada às demais, meu modo de conduta, meu controle e a regulamentaçao de meus impulsos serao, evidentemente, muito diferentes do que seriam se eu fosse mais ou menos isolado e independente e pudesse fazer o que me parecesse certo'. (Mannheim, 1962, p. 65-66).

[8] Ver Etzioni (1974) para um aprofundamento dessa tipologia.

[9] Para Weber, uma açao é social quando um ator social atribui um certo significado a sua conduta e, por meio deste significado, relaciona-se ao comportamento de outras pessoas.

[10] Seja por necessidades puramente financeiras, por meio da política cognitiva (Ramos, 1989) ou pela adesao passional (Enriquez, 1995).

[11] Por exemplo, a psicose ocupacional assinalada por Merton (1978) na seçao 2.

[12] Isso nao significa que esses sentidos devam ser apenas do indivíduo, caindo no subjetivismo (ver item 2.1.1).

[13] Essa idéia tem por base os pensamentos de Aristóteles (1985). Nessa linha, a observancia de uma lei ou de um código de conduta nao é condiçao suficiente para que o agente se torne moral. Assim como uma pessoa, desconhecedora dos saberes da medicina, que for 'comandada' por um médico numa operaçao nao se torna médico,  a pessoa que segue determinadas normas ou códigos, mesmo de maneira irrestrita, nao pode ser qualificada como agente moral, mesmo essas normas objetivarem tal qualificaçao.

[14] Como exemplo de propostas para tal transformaçao podem ser citadas as organizações inteligentes (Pinchot, Pinchot, 1995) e organizações em aprendizagem (Senge, 1990).

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